segunda-feira, 16 de julho de 2007

Reflexões breves sobre oração

ORAÇÃO: Amizade com Deus X Inimizade com o “mundo”?


Introdução:

“Encontre a porta de seu coração, e você descobrirá que o mesmo é a porta do Reino de Deus” – João Crisóstomo (Pregador do IV D.C)

Todos nós cremos e somos convictos de que devemos estar em constante comunhão com nosso Deus através da oração, todavia poucos, apenas uma parcela do “corpo de Cristo” vive realmente uma realidade de disciplina em oração e para com a oração.
Se pensarmos nas palavras de Crisóstomo e suas implicações para nossas vidas, seremos obrigados a admitir que estamos ainda do lado de fora e muitas vezes sem ao menos estar perto da chave que abre nosso coração. Nossas orações tendem a ser apenas reflexo de nossa falta de comunhão e perspectiva da realidade para com nosso Deus e salvador.
Somos considerados como “raça eleita, sacerdócio real” - I Pe 2.9, e, no entanto estamos aquém do que se espera de cada um, aquém do sacerdócio que intercede e se coloca diante de Deus pelo seu povo, pois não sabemos ou não queremos saber como interceder.
Vejamos o mundo (pessoas) ao nosso redor, isolando-se cada vez mais, deixando o convívio com familiares e amigos e por conseqüência deixando o convívio com Deus, sentindo-se auto suficiente em tudo; usando as palavras do Dr. James Houston em seu livro Orar com Deus pela editora ABBA PRESS pág. 11 “... nunca poderemos reivindicar uma relação calorosa com Deus, em oração, se nosso relacionamento com as pessoas se mantém mínimo”.
Será que conseguimos perceber os fatos, a realidade que nos cerca como “igreja”? Estamos deixando de orar ou estamos orando por necessidades passageiras?
O que preocupa é que muitas de nossas orações atingem a todos ao nosso redor, mas não conseguem chegar nem perto do coração de Deus, pois se baseiam em interesses passageiros e imediatos que são abandonados quando nos satisfazem ou produzem vidas frustradas por não serem atendidos ou não respondidos como queremos.
Talvez neste ponto é que deveríamos começar a nos questionar, perguntar ao nosso coração quais são nossos reais interesses e convicções e também se Deus esta de acordo com nossas petições e súplicas e ainda questionar o quanto posso e quero entregar em oração.
“Muito pode por sua eficácia a oração do justo” – Tg 5.16, em outras palavras é dito a cada um de nós que podemos revolucionar nossas vidas e a vida de todos os que nos são queridos, caros ao nosso coração, bastando apenas sermos justo, alicerçados naquele que pagou o preço de nossa justificação: Jesus Cristo.
Dito isto vamos tratar desta amizade com Deus em nossas orações e como relacionar esta amizade com o mundo, descobrindo pela palavra de Deus se devemos ser inimigos deste mundo(pessoas).

ORAÇÃO: Amizade com Deus

“Orar é manter companhia com Deus” – Clemente de Alexandria


Quando se tem em mente que Deus nos chama de amigos através de seu filho - Jo 15.15 começamos a procurar que tipo de amizade é a que nos ofereceu o Pai, e temos que, sem sombra de dúvida, ficar defronte a cruz do salvador morrendo por esta amizade, santificando esta amizade por amor e presenteando com a salvação.
É Deus que toma a iniciativa de nos procurar, amando-nos a ponto de entregar seu próprio filho em resgate – Jo 3.16, nos levando ao ponto culminante da maldição da cruz: Jesus se fazendo maldito em nosso lugar.
E agora somos vistos como pessoas capacitadas a estar em comunhão com o Pai, pessoas que podem estar sempre ao seu lado, caminhando dia após dia com convicção de que estamos trilhando o caminho da esperança.
Neste ponto devemos ter em mente que precisamos deixar de lado nossas ocupações que nos tiram o tempo de estarmos com Deus e buscarmos o tempo para estar aos pés do Cristo, alicerçando esta amizade através da comunhão da oração.
Somos levados ao Pai através da oração mediante o sacrifício de Cristo e pela instrução do Espírito Santo que agora em nós habita e que intercede por nós e muitas vezes através de nós.
Por isso somos convictos que aqueles que não tem amizades dificilmente conseguiram ter amizade com Deus, abrindo corações em humildade, contando sonhos, frustrações, realizações e anseios.
Sabemos que o ser humano é um ser que se relaciona com outras pessoas, mas também temos convicção que consegue destruir estes relacionamentos rapidamente e é neste ponto que precisamos alicerçar nossa amizade com Deus, não permitindo que nosso egoísmo nos afaste deste convívio, desta comunhão com nosso salvador e senhor.
Orar sem manter uma amizade sincera com Deus é jogar palavras ao ar e vê-las se dissipando ao vento; é impossível uma vida de oração sem uma vida de amizade.
Isto nos leva a questionar nossas vidas a respeito do tempo que gastamos com Deus e o tempo que gastamos com o resto de nossas agitadas vidas de isolamento social, onde procuramos nosso “cantinho” e não queremos ser incomodados, onde o que interessa é o tempo com nosso corpo, nossas novelas, nossos programas favoritos e tudo mais que nos de um pouco de “paz”. O fato é que a verdadeira paz só pode ser encontrada em vidas que priorizam Deus, que dão a Ele o primeiro lugar.
Parece que somos reconhecidos por nossas atitudes do que pela nossa vida de oração. No entanto Deus nos reconhece por nossa submissão a Ele.
Por isso precisamos dar prioridade à oração para que possamos ser reconhecidos por Deus; impressionante ver como conhecemos muito daquilo que apreciamos, carros, motos, alimentos, paixões; precisamos começar a apreciar Deus.
A impressão que temos é que estamos sempre nos escondendo de Deus, medo de sermos conhecidos e nos conhecermos, afinal, não se pode esconder o que somos de Deus, não se pode mentir em oração.
Resta-nos o caminho da humildade na presença de Deus, reconhecendo nossas fraquezas e também nossa falta de companheirismo com o criador.
A oração é o que nos faz crescer na presença de Deus, pois a comunhão produz maturidade e força para vencermos nossas batalhas.
Portanto, se nossa amizade com Deus se resume a apenas alguns segundos ou minutos não estamos sendo amigos de Deus.
“Quando não há oração saída do coração, também não há religião” – Auguste Sabautier.
Nossas orações devem refletir em nossas vidas aquilo que Deus é e quer ser através de nós.
Concluindo esta parte reflitamos nas palavras de um escrito anônimo do séc. XV II:
“É a ignorância que os homens têm de si mesmos que faz a oração ser pobre em petições: a fome é quem melhor ensina os homens a pedir. Você ficaria mais freqüentemente de joelhos, se ficasse mais freqüentemente em seu coração. A oração não pareceria tão desnecessária, se você soubesse quais são suas necessidades. Conheça a si mesmo, e então despreze a oração, se puder fazê-lo”.

ORAÇÃO: Inimizade com o “mundo”?

“Sem Cristo há discórdia entre Deus e o homem. Cristo tornou-se o Mediador e estabeleceu a paz entre Deus e o homem. Sem Cristo não podemos conhecer a Deus, nem podemos invocar a Deus, vindo a Ele. Sem Cristo também não podemos conhecer nosso irmão, e nem vir a ele. O caminho acha-se bloqueado por nosso próprio ego. Cristo abriu o caminho para Deus e para nosso irmão. Agora os crentes podem viver juntos e em paz; eles podem amar e servir uns aos outros; eles podem tornar-se um só. Mas só podem fazer isso por meio de Jesus Cristo”. - Dietrich Bonhoeffer



Felizmente temos tendência a buscarmos a Deus em oração por nossos familiares, amigos, pessoas próximas e até por nossos inimigos, o que é aceitável a agradável a Deus. Por outro lado, e até com a mesma intensidade de nossas orações, temos tendência a deixar Deus fazer tudo, pois cremos que é Ele que tem o trabalho de transformar as pessoas.
Sim, a resposta é sim, Deus pode fazer e até faz com freqüência as mudanças necessárias á uma vida que recebe a Cristo como Salvador, mas temos que atentar e ouvir as palavras de Cristo “...assim como o Pai me enviou, eu vos envio..” - Jo 17.18.
Temos então o oposto de nossas convicções, Deus vindo ao encontro do pecador para justificá-lo, salvá-lo através de Cristo, e Cristo por sua vez nos enviando.
Eis nossa missão recebida do próprio Cristo, não para sermos influenciados pelo mundo, mas para influenciar e modificar através do ensino e da amizade.
Ter amizade com Deus e amar as pessoas, orar por elas e nunca vê-las como indiferentes ou inimigas. O mundo não pode ter nossa inimizade; o pecado que se comete pelo mundo é que se deve ter por inimigo, deixado de lado, nunca às pessoas que os cometem; Jesus nunca deixou e deixa o pecador.
Com certeza nossas orações são ouvidas por Deus “...nada esta encoberto a seus olhos” – I Pe 3.12, Heb 4.13, todavia Deus pede nossa colaboração para a proclamação da verdade “...ide por todo o mundo...” Mt 28.18.
E se queremos exemplo desta atitude, olhemos com firmeza a obra de Cristo e de como veio ao nosso resgate, como se preocupou com nossa vida, por nossa libertação. Jesus Cristo sempre estava em comunhão com o Pai, e também sempre em comunhão com seus discípulos, nunca os deixando desamparados. Como poderemos ser diferentes e apenas orar e achar que é o suficiente.
E para aquele que acham que Cristo não esta mais entre os seus lembremos as palavras registradas em Mt 18.20 “...onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles.”
Como teremos inimizade com o mundo (pessoas), como nos afastaremos de quem e por quem devemos clamar. Quantas vezes por semana estou ou falo com quem esta em minhas orações? Que tipo de atenção estou dispondo a elas?
Certamente Deus quer agir, mas nós somos seus agentes; a oração não pode estar longe e nem divorciada da ação, caso contrário não tem valor nosso esforço.
E se atentarmos mais ainda pra Cristo o vemos tomando a forma de servo, deixando de lado sua glória, revestindo-se de nossa humanidade a ponto de morrer horrivelmente na cruz – Fil 2.7,8. Será que podemos agir de forma diferente para com nossos semelhantes, que clamam por uma amizade que ultrapasse a barreira de nossos “guetos cristãos”, sendo sincera e verdadeira?
Deus com certeza não faz acepção de pessoas, e nós? Queremos alcançar o mundo? Sejamos mais amigos dele.
C. S. Lewis autor que ficou conhecido agora pelo filme “As crônicas de Nárnia” disse certa vez “não há pessoas ordinárias, você nunca falou com um mero mortal”.
Inimizade com o mundo? Jamais.
Deus separou a cada um de nós para sermos intercessores e amigos das pessoas, mostrando a elas o caminho da verdade. Reflitamos nisso sempre.

Conclusão

“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis... segundo a vontade de Deus” – Rm 8.26,27

Diante do que foi exposto e diante também da analise que devemos fazer de nossas vidas fica-nos o desafio de sermos os melhores amigos de Deus em todas e quaisquer circunstâncias, pois para isso Cristo veio, para fazer com que nosso contato com Deus seja renovado e alicerçado em amor.
Amizade sincera, que não esconde, que revela os anseios e desejos do coração, não por saber que Deus é onisciente e nada se pode esconder, mas por saber que Ele tem uma palavra de conforto e solução para tudo e em qualquer tempo.
Amizade que deve ser compartilhada com todas as pessoas ao nosso redor, pois não basta orar por quem não se tem contato, precisamos demonstrar nosso interesse, seja a pessoa quem for e onde estiver. Mostrar que não somos e nem queremos ser inimigos de pessoas e sim do pecado, que as amamos e precisamos do convívio de cada uma delas.
Deus desta forma nos abençoara e fará prosperar nossas vidas e a vida das pessoas que ele quer resgatar através de nossa amizade; amigos que temos e amigos que teremos no futuro.
Amigos que clamam por nossa amizade e por nossa ajuda, seja através de um telefonema, uma carta, um e-mail, enfim.... seja do jeito que for.
Que o Deus de paz nos abençoe sempre.
À Deus toda a glória.
Rogério Percel Aires

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